DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Verbasizer (David Bowie) pesquisa

Verbasizer - David BowieVerbasizer - David Bowie

No episódio da série VH1 Storytellers (1999) estrelando David Bowie o músico comenta que a baixa qualidade das letras das músicas da sua antiga banda Tin Machine são “culpa do computador”. Ele se refere ao Verbasizer, um aplicativo criado por ele (junto com Ty Roberts) que automatiza uma técnica adotada pelo músico para escrever.

A técnica consiste na formação de frases aleatórias a partir do embaralhamento de palavras obtidas de recortes de manchetes de jornal e outras fontes.

Palavras Num Chapéu

O funcionamento do aplicativo parece ser simples (neste post há uma imagem da interface). Há campos para inserir as frases, a partir das quais uma nova frase pode ser gerada, contendo palavras e trechos do material original (o aplicativo não parece considerar o aspecto gramatical, por exemplo).

Note que o Verbasizer difere de outras abordagens computacionais no sentido em que emprega o computador de uma maneira relativamente superficial – apenas imitando (ou emulando) uma técnica tradicional; no caso, o uso de uma tesoura e um chapéu para embaralhar as palavras.

Ty Roberts [, co-creator of the Verbasizer,] described Bowie as taking multiple word sources, from the newspaper to hand-written words, cutting them up, throwing them into a hat and then arranging the fragments on pieces of paper. He’d then cross out material that didn’t fit to create lines of lyrics. Roberts suggested he could create software for Bowie to speed up the process (…).

De certa forma isso diminui um pouco o que seria a contribuição real do computador neste processo criativo particular. Afinal, a técnica pode ser realizada sem o aplicativo, apenas de maneira menos prática e mais demorada.

Por outro lado, é preciso considerar que, a partir do momento em que um processo se torna automatizado e se desloca para “fora do corpo” do artista, isso lhe permite novos níveis de abstração. Isto é, ao livrar sua mente das particularidades do processo manual de geração das frases, Bowie pode se concentrar em outras oportunidades de expressão poética.

“Sonho Tecnológico”

No documentário Inspirations (Michael Apted, 1997), que trata sobre o processo criativo, Bowie elabora.

It’s almost like a technological dream in its own way. It creates the images from a dream state without having to go through the boredom of going to sleep all night; or get stoned out of your head. And it will give me access to areas that I wouldn’t be thinking about otherwise (…) (5:35 neste vídeo)

Evidentemente o papel do artista continua sendo fundamental, em primeiro lugar na escolha das frases originais, mas principalmente na análise das frases geradas pelo computador, e nas decisões posteriores sobre como utilizar este material de maneira poética ou expressiva.

I can then reimbued [the generated sentece] with an emotive quality if I want to; or take it as it writes itself. (3:58)

Porque o Artista Cria?

Acho interessante o que pode ser deduzido sobre o papel do artista de uma maneira geral a partir da aparente contradição entre esta técnica empregada por Bowie e a sua postura criativa, tal como ele descreve.

Always remember that the reason that you initially started working was that there was something inside yourself that you felt that if you could manifest it in some way you would understand more about yourself and how you coexist with the rest of society.

Se o impulso do artista reside na busca por algo “dentro de si”, a princípio não faria sentido partir de um estímulo artificial externo. A questão é que o trabalho do artista, sua identidade criativa ou expressiva, não reside tanto nos seus atos ou produções particulares quanto no seu modo de fazer.

Isto é, David Bowie não é uma música, um album, uma pintura ou uma escultura – estes são apenas produtos que derivam do seu embate com as coisas ao seu redor (incluindo com si mesmo) – mas é através destas obras que temos acesso à sensibilidade característica deste artista específico.


PS: há uma nova versão do Verbasizer, na qual letras de música são geradas automaticamente com base em manchetes obtidas online. Esta versão foi criada para uma exposição sobre o trabalho de Bowie (artigo). Note que neste caso não há – e nem teria como haver – o elemento humano, que analisa e seleciona o material gerado pela máquina.

PPS: no album Outside (1995) Bowie experimentou com diferentes abordagens ao processo criativo – por exemplo, ele instruía o guitarrista a fazer um solo utilizando apenas uma corda do instrumento. O Verbasizer também foi utilizado, como uma maneira de estimular novas formas de criatividade. “The Verbasizer was used in the creation of “Outside” which employed additional creative techniques for bypassing one’s usual methods of artmaking that fall into patterns that are otherwise difficult to avoid. Roberts had the unique experience of observing Bowie’s working methods as he went from the computer to the mic with new material sometimes in just a minute.” (trecho deste artigo, citado acima)

PPPS: “Artists often feel as though they have the key to something. I don’t think that we do at all. We just dwell on it more.” – David Bowie


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