DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Poesia Gerada Por Computador pesquisa

Nick Montfort (MIT) fala sobre poesia gerada por computador (ou talvez não?) e mostra alguns dos seus hipnóticos trabalhos nesta interessante palestra na Google, intitulada Geradores Literários e Arte Computacional (em inglês, “Literary Generators and Computational Art” – assista abaixo).

Leia o post abaixo para alguns trechos, e comentários meus sobre a palestra.

Meta-Poesia

Nesta palestra Montfort fala sobre seus livros #! e Megawatt, e mostra diversos exemplos do seu trabalho. [1]

Me interessa particularmente a maneira direta como ele lida com o debate sobre a poesia gerada por computador ser de fato poesia ou não. De acordo com Montfort, a poesia em seus trabalhos é diferente daquela que se encontra em obras tradicionais – trata-se de uma espécie de meta-poesia. [2]

Não estou tentando usar [poesia gerada por computador] para expressar coisas da minha vida ou emoções, mas sim para explorar a linguagem de uma maneira poética, através do ato de produzir um gerador de poesia e do ato de produzir linguagem poética (30:00) [3]

Nesse sentido, sua produção criativa estaria mais próxima da análise linguística, mas feita de uma maneira poética, sem o mesmo rigor científico.

Em Megawatt, por exemplo, Montfort tenta reimplementar Watt (Samuel Beckett, 1953) através de um código que reproduz certas passagens da obra, bem como texto original gerado seguindo o mesmo estilo e estrutura. Isto é feito como uma maneira de compreender a obra de Beckett, e talvez até mesmo o próprio autor (ou simplesmente como uma leitura particular deste texto).

Engajar/Encontrar

Acho interessante o fato de que Montfort não considera o produto (ou “output”) dos seus programas como sendo poesia (embora seus programas sejam apresentados como “geradores de poesia”), mas considera o processo criativo ou abordagem adotada como poética. Ele chega a afirmar que o produto dos seus algoritmos é ilegível.

Fisicamente nós temos tempo nas nossas vidas para ler algo desse tipo, mas é ilegível por conta de não ter sido criado de uma maneira humana, para leitura. Mas ainda assim podemos nos encontrar com [este tipo de texto] computacionalmente. (33:45) [4]

Ao invés de produzir poesia, Montfort se “engaja” ou “encontra” com a poesia via computação.

Evidentemente ele tem o direito de afirmar isso sobre suas próprias criações. Mas é interessante considerar que outro artista utilizando uma abordagem similar à de Montfort poderia muito bem afirmar o contrário – que o produto de seu código é poesia, que pode (e deve) ser lida (por um ser humano).

Na minha opinião isso mostra o quanto da poesia e da expressividade vem da intenção original do artista, em oposição à materialidade da obra (ou a sua interpretação por parte do público).

[Post original em inglês: 2014/12/13. Tradução em português: 2015/01/13.]


  1. Acesse o post original sobre esta palestra no blog de Montfort aqui . []
  2. Montfort não usa o termo “meta-poesia” – esta é a minha interpretação. []
  3. Em inglês: “I’m not trying to use [computer-generated poetry] to express things about my life or emotions, but to explore language in a poetic way, through the making of a poetry generator and the making of poetic language.” []
  4. Em inglês: “We physically have the time in our lives to read something like this, but it’s illegible due to not being created in a human way for reading. But we can still encounter it computationally.” []

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