DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Unidades de Expressão (I) pesquisa

Nota: este é o post I de uma série em quatro partes: II, III, IV [1]

O que a poesia de Charles Baudelaire, Bukowski, o filme Amélie e a série The Sims tem em comum? (1)

Segundo o pesquisador Ian Bogost, todos representam a situação do “encontro casual”, em diferentes graus de formalização – desde a detalhada descrição na poesia do século XIX, até a sua codificação nos algoritmos de um jogo.

Em Unit Operations (MIT Press, 2006), Bogost propõe uma metodologia de estudo sobre manifestações comunicacionais e expressivas em mídias digitais, com ênfase em videogames. Para isso, traça paralelos entre conceitos da Teoria Literária e da Computação, bem como de outras áreas, incluindo Filosofia, Psicologia e Semiótica.

A situação do “encontro casual” foi escolhida pelo autor para ilustrar o conceito de “unidade de significado cultural” (ou “unidade de memória cultural”). Trata-se de uma determinada ideia que se encontra condensada (ou codificada), de maneira similar a um motif. (2, 3)

Baudelaire: poesia, séc. XIX

No poema A une passante, escrito no meio do século XIX, Charles Baudelaire descreve um (des)encontro entre o eu lírico e uma mulher nas ruas da cidade. (4)

Somewhere else, far from here! Too long! Maybe never!
I don’t know where you’re running, nor do you me,
Oh you who I would have loved! And you who knew it too!

Mais do que descrever uma situação específica, o poema contém uma “unidade de significado” que representa um encontro casual. O poema mostra como as cidades modernas promovem encontros incidentais entre os seus habitantes, e formaliza estratégias para lidar com a alienação da vida moderna.

Charles Bukowski: poesia, séc. XX

Em seguida, temos A Woman on The Street (1996), poesia de Charles Bukowski envolvendo o mesmo tema do encontro casual. Porém, neste caso, a situação aparece de uma maneira mais familiar e condensada.

her shoes themselves
would light my room
like many candles.

she walks like all things
shining on glass,
like all things
that make a difference.

she walks away.

Bogost argumenta que, enquanto que em Baudelaire o encontro casual na cidade é uma situação nova, em Bukowski ela já se transformou em uma “unidade de significado cultural” estabelecida (Bogost também usa o termo “unit of cultural currency“).

De fato, em Bukowski, a linguagem é mais direta e compacta. Muda também a postura do eu lírico – ele não tenta entender ou resolver a situação; ao contrário, aceita a sua inevitabilidade.

Amélie: Cinema, 2001

O filme Amélie, dirigido por Jean-Pierre Jeunet, narra as tentativas da sua protagonista em orquestrar encontros entre pessoas. Bogost observa que aqui o “encontro casual” se vê de tal forma codificado que o próprio filme funciona como uma metáfora deste processo – Amélie atua como uma espécie de “designer de encontros” (isto é, mais do que fazer bem aos outros, ela deseja realizar sua fantasia do “encontro ideal”).

A introdução do filme, na qual os personagens principais são apresentados através de cenas rápidas e objetivas, ilustra bem esta diferença entre o discurso tradicional, mais descritivo e elaborado, para uma forma mais moderna, direta e condensada.

The Sims: Hot Date (Will Wright, 2001)

Nesta última instância de representação da situação do encontro casual, temos o jogo The Sims (Maxis,2000-). Nele, o jogador pode criar uma casa e os seus habitantes, controlando diversos aspectos das suas “vidas virtuais”. A expansão Hot Date inclui situações adicionais relacionadas a encontros amorosos.

Segundo Bogost, em comparação com os três casos anteriores, o jogo representaria um caso extremo de formalização. Em The Sims o “encontro casual” estaria literalmente codificado nos algoritmos do jogo.

Unlike “A une passante” and “A Woman on the Street,” which offer poetic significance by their formal characteristics, meaning in The Sims comes solely from the generative effect of numerous codified rule sets. (pg 86)

Neste caso, o receptor da experiência pode explorar a situação do “encontro casual” como um sistema. Um tipo de fruição diferente daquela que se dá na poesia e no cinema.

Beause The Sims is a game, players have an opportunity to explore the conditions, assumptions, and outcomes of the simulation through interaction, something impossible in the poems of Baudelaire and Bukowski. (pág. 85)

Segundo Bogost, The Sims: Hot Date representa o colapso desta “unidade de significado” herdada de Baudelaire (pág. 88).


Este é o primeiro em uma série de quatro posts relacionados à minha leitura de Unit Operations.

Nos próximos posts, aprofundo um pouco mais sobre alguns dos temas tratados por Bogost no livro, apresentando a minha leitura crítica e relacionando-os à minha própria pesquisa.


Notas

1. Créditos da primeira imagem do post: (1) mulher séc XIX daqui, (2) mulher crumb+bukowski daqui, (3) olhar da Amélie do filme e (4) imagem “The Sims: Hot Date”, divulgação. (voltar)
2. Note que Bogost não propõe a busca por formas ou estratégias “equivalentes” entre as diferentes linguagens, mas sim trata da forma própria a cada uma delas. (voltar)
3. Este blog usa linguagem informal. Para referências mais completas, consulte os textos originais. Números de página isolados referem-se ao livro Unit Operations de Bogost. (voltar)
4. Segue abaixo o poema completo, em tradução de Ian Bogost:

A une passante (Charles Baudelaire)

The deafening street was shrieking around me.
Tall, slender, grieving majestically in her widow’s veil,
A woman passed, with a delicate carriage
Lifting up and swinging her skirttails;

Sprightly and noble, her arms were like a statue’s.
As for me, I was drinking, restless like an eccentric,
In her eyes, I saw the livid sky where hurricanes begin,
The sweetness that charms and the pleasure that kills.

A flash… then night! — Fleeting beauty
Whose glance suddenly gave birth to me again,
Will I see you again only in eternity?

Somewhere else, far from here! Too long! Maybe never!
I don’t know where you’re running, nor do you me,
Oh you who I would have loved! And you who knew it too!

Há outras traduções deste poema disponíveis online, em inglês (por exemplo, aqui) e em português (aqui tem algumas – mas convém notar que estas versões diferem substancialmente da versão em inglês citada neste post). (voltar)


  1. Esta série de posts foi originalmente publicada entre Julho e Agosto de 2013. Em 2015/01/30 alguns dos elementos destes posts foram alterados para deixar mais claro que tratam-se de uma série – os títulos foram padronizados (bem como os links para os outros posts na série), e os subtítulos foram editados de forma a refletir cada conteúdo específico. Nota: os posts desta série utilizam um padrão antigo para as notas de rodapé – assim, até este sistema ser padronizado, este post terá duas notas de número 1. []

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