DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Cybernetic Serendipity evento

Cybernetic Serendipity

[Translation in English not available for this post.] [1]

Em 1968 aconteceu em Londres a Cybernetic Serendipity, uma exposição pioneira de “arte cibernética” (ou arte tecnológica). Em Outubro de 2014 foram promovidos uma série de eventos celebrando a exposição, no mesmo local onde ela aconteceu originalmente, no Instituto de Arte Contemporânea (ICA, na sigla em inglês), com participação da curadora original Jasia Reichardt.

Segue meu relato sobre dois destes eventos que tive a oportunidade de presenciar – a “metaexposição” Cybernetic Serendipity: A Documentation e a “mesa redonda” The Legacy of Cybernetic Serendipity, com o compositor Peter Zinovieff e Reichardt, bem como o artista Yuri Pattison e o curador Paul Pieroni.

Veja todos os eventos no site do ICA.

Cybernetic Serendipity: A Documentation

Me refiro a esta como uma “metaexposição” porque ela era composta principalmente de materiais sobre a exposição original de 1968. Isso incluía desde documentos, fotos e artigos de jornal até livros e outras publicações, além de um documentário (youtube).

Nota: acesse minhas fotos da exposição aqui (Google Drive) – inclui versões em alta resolução de algumas das imagens deste post. [2]

Publicações

Publicações

Além destes documentos, havia também algumas obras em exibição (não sei dizer quais delas participaram da exposição original). Entre as obras estavam filmes (mostrados em um monitor antigo), impressões (ou prints) e músicas (que podiam ser ouvidas pelos visitantes através de dois tablets com fones de ouvido).

Exibição de filmes

Exibição de filmes

Return to Square (CTG, 1968)

Return to Square (CTG, 1968)

A exposição aconteceu entre os dias 14 de Outubro e 30 de Novembro de 2014, no Fox Reading Room do ICA (site).

Informações e materiais adicionais: cyberneticserendipity.net


The Legacy of Cybernetic Serendipity

Este evento foi uma mesa redonda com o compositor britânico Peter Zinovieff, o artista Yuri Pattison e o curador Paul Pieroni. Jasia Reichardt fez uma breve introdução e participou da sessão de perguntas do público no final.

A intenção era discutir o legado da exposição original, e a sua “ressonância contemporânea”. Na prática, entretanto, o evento foi problemático, principalmente pela maneira como os organizadores estruturaram a dinâmica da discussão. Além disso, a organização do evento foi confusa, e a duração muito curta (pouco mais de uma hora no total).

Discussão: Pieroni (esq.), Zinovieff e Pattison

Discussão: Pieroni (esq.), Zinovieff e Pattison

Introdução

Na sua fala de introdução, Reichardt descreveu como a máquina digital inicialmente servia unicamente de inspiração para artistas que atuavam em meios tradicionais. Era o caso das pinturas de Lowell Nesbitt, representando computadores e outros equipamentos eletrônicos, e obras como Watch (Gerald Murphy, 1925). [3]

IBM 6400 (Lowell Nesbitt, 1965)

IBM 6400 (Lowell Nesbitt, 1965)

Watch (Gerald Murphy, 1925)

Watch (Gerald Murphy, 1925)

Segundo Reichardt, os primeiros artistas a de fato empregarem o computador para a produção artística foram Charles Csuri e Harold Cohen. Originalmente um pintor, Cohen se interessou pela arte computacional e criou Aaron, um programa que gera desenhos (ou imagens). Reichardt relata: “Cohen chega a dizer que o programa irá continuar produzindo ‘originais’ muito tempo depois da sua morte, permitindo que ele tenha uma exposição póstuma de novos trabalhos”. [4]

Vitruvius man (Charles Csuri, 1968)

Vitruvius man (Charles Csuri, 1968)

Aaron, 1992. Fonte: www.stanford.edu

Discussão

Terminada a introdução, deu-se início a mesa redonda entre os participantes, que depois se abriu para perguntas da platéia.

Zinovieff falou um pouco sobre uma das suas obras (um sistema que produzia música com base em assobios) e declarou ser o primeiro artista a samplear sons, em 1965. Ele também chamou atenção para o conceito da serendipidade (ou “serendipity”), explicando os métodos que utilizava para incluir elementos aleatórios em suas obras. Estes incluíam desde sons gerados a partir de imagens da filmagem de flores até o uso de contadores Geiger (para medir radiação). [5]

Reichardt observou que no passado as diferentes artes (ou linguagens) se encontravam predominantemente isoladas umas das outras – havia limites claros entre a Literatura, o Teatro, as Artes Visuais e assim por diante. Hoje, segundo ela, estes limites já não são tão claros, e talvez nem existam mais.

Conflito de Gerações

Apesar dos relatos interessantes, a dinâmica da discussão de uma maneira geral não foi das melhores. O propósito do evento, que era de celebrar e discutir a arte e os artistas presentes na exposição original, acabou não se realizando plenamente.

Pieroni, o curador responsável pela mediação do debate, falou mais do que qualquer um dos presentes. Fez perguntas herméticas e repletas de referências, tentando impor na discussão múltiplas e complexas conexões entre arte, política e sociedade (Pattison tinha um discurso similar, porém mais interessante e acessível, e menos impositivo).

Enquanto isso, Zinovieff e Reichardt conversavam (e respondiam) de uma maneira simples e direta, rebatendo (e ocasionalmente ignorando) os discursos e interpretações sendo lançados pelo mediador. Ambos deixaram claro que a maioria daqueles artistas “só queriam fazer arte, criar e inventar”, não teorizar, ou atuar de maneira política. Reichardt explicou que a ideia na época era “simplesmente experimentar com as máquinas – ver no que dava”. [6]

Ademais, foi curioso observar estas diferenças entre o discurso dos participantes veteranos e aquele dos mais jovens.


Eu pessoalmente não acredito que exista uma maneira certa ou errada de abordar uma discussão, principalmente sobre a prática artística. Há valor tanto no discurso objetivo e prático, quanto nas elaborações mais complexas e intelectuais. A questão é que, neste evento, o foco deveria ser a perspectiva dos artistas e da curadoria da exposição original de 1968, e não dos organizadores desta retrospectiva.

É verdade que, embora trate-se de uma retrospectiva, a intenção também é de identificar conexões e repercussões contemporâneas do que estava sendo feito no passado. Entretanto, isso não deveria acontecer às custas de uma diluição do discurso original daqueles artistas.


Depois do evento consegui conversar um pouco com Jasia Reichardt, a curadora da exposição original. Uma octagenária muito energética e simpática, ela respondeu às minhas perguntas e ainda contou algumas histórias. Explicou a origem da palavra serendipidade, que envolve um conto de fadas persa com princesas que estavam “sempre fazendo descobertas, por acidente ou sagacidade, de coisas pelas quais elas não estavam em busca.” (wikipedia). [7].

Questionei Reichardt sobre algo que ela falou no início do evento, sobre Harold Cohen, de que ele afirmava se considerar um artista. Mencionei que achei isso curioso, uma vez que há artigos dele que afirmam justamente o contrário – que ele se considera unicamente um “criador de imagens”. Ela abriu um sorriso e respondeu que “é assim mesmo… ele mudava de ideia o tempo todo”.

Este evento aconteceu em 5 de Novembro de 2014, no Studio do ICA (site).

Há um vídeo no site do ICA que trata de alguns destes temas, e inclui relatos de alguns dos participantes do evento – aqui. O vídeo é sobre uma compilação de música eletrônica, parte dos eventos de celebração da Cybernetic Serendipity.


Saiba mais sobre a minha pesquisa em mídias digitais, que trata sobre a expressividade procedural.

[Publicado em 2015/11/30.] [8]


  1. Request a translation using the contact form. []
  2. As impressões retratadas na imagem “CS_prints.jpg” foram todas criadas pelo Computer Technique Group, em 1968. Da esquerda para a direita: Return to Square (Masao Komura); MONROE in the NET (Haruki Tuchiya); KNDY (Komura) []
  3. Fontes: Nesbitt e Watch. []
  4. Em inglês: “Cohen goes so far as to say the program will continue to turn out “originals” long after his death, enabling him to have a posthumous show of new works!”. Harold Cohen é um dos artistas principais na minha pesquisa (posts). []
  5. Zinovieff também lembrou que a exposição Cybernetic Serendipity foi fundamental para a criação da Computer Art Society britânica. []
  6. As citações neste parágrafo, embora não se tratem das palavras exatas dos participantes, representam o conteúdo do que foi dito, e o tom informal das suas falas. []
  7. Em inglês: “(…) always making discoveries, by accidents and sagacity, of things which they were not in quest of”. []
  8. O post foi publicado no blog com a data de Novembro de 2014 por conta de se referir a um evento daquela época, de forma a preservar a ordem cronológica em relação aos demais posts. []

See more blogpesquisa.