DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Automavision técnica

Automavision (Lars von Trier)Automavision (Lars von Trier)

Há algo de incômodo nos enquadramentos do filme The Boss of It All (Lars von Trier, 2006). Muitas vezes a composição das cenas parece não levar em consideração o seu conteúdo – os atores, seus movimentos e ações, os objetos e ambientes, tudo parece se confundir, como se a câmera representasse um olhar alienígena, definitivamente não humano.

O responsável por este olhar é um “diretor de fotografia” especialmente construído para este filme: o sistema computacional Automavision.

Automavision

O funcionamento do Automavision é relativamente simples. Para cada cena, primeiro a câmera é colocada em uma posição inicial, mais ou menos voltada para o foco de interesse. Em seguida, o Automavision é ativado. O sistema reposiciona a câmera de maneira arbitrária, modificando parâmetros como pan, tilt e zoom. A primeira tomada é então filmada.

Para cada nova tomada da cena, antes da filmagem o Automavision é ativado novamente, levando a uma nova configuração da câmera.

As imagens neste post ilustram o resultado – cada dupla de imagens representa capturas de tomadas diferentes de uma mesma cena (clique nas imagens para ampliar).

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

Esta variação no enquadramento entre as diferentes tomadas às vezes é sutil, mas também pode ser bastante perceptível. [1]

Por conta do uso deste sistema, The Boss of It All é repleto de “jump cuts” (nome dado para os cortes entre takes diferentes de uma mesma cena com enquadramentos similares). Isso leva a um ritmo frenético, que amplifica e chama atenção para o estranhamento causado pelos enquadramentos incomuns.

A intenção de Lars é justamente de incomodar:

[N]early every cut feels like an ellipsis. A film, von Trier has said, should be as irritating as a pebble in your shoe, and his abrasive tempo gives his comedy an anxious edge. (Another pebble in your shoe)

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

Sem Controle

Alguns críticos sugerem um paralelo entre o tema do filme – a frieza do mundo corporativo e a transferência de responsabilidade – e a desumanização sugerida pelo uso de um sistema computacional como este.

O diretor não chega a fazer essa conexão, citando apenas um desejo de perder o controle (fonte).

[Automavision is a] principle for shooting film developed with the intention of limiting human influence by inviting chance in from the cold (…) and thus giving the work an idea-less surface free of the force of habit and aesthetics. (fonte: press release)

Isto é, o uso do sistema não seria necessariamente uma busca por determinada estética ou sentido, mas sim a negação de tentar significar qualquer coisa através deste elemento ou aspecto específico do filme. [2]

Nesta coletiva de imprensa Lars elabora:

Basically I make the frame how I’d like it to be in the film, and then we push this button on the computer and we get given six or eight randomised set-ups – a little tilt, or a movement, or if you should zoom in. It’s supposed to make the image imprecise. And then you say why?(…) I am a man who likes to control things, and if I can’t control them totally I will not control them at all. After doing Europa with very very fixed shots and camera movements, I was tempted to do something totally different. I started using a handheld camera and we invented a form of framing, or non-framing, called pointing of the camera, because I hate framing.

I think it changes the way you watch films because you have to be much more active. Also I am crazy about time cuts. I have a theory that the audience tie everything together so they don’t see time cuts but the time cuts give us the possibility of jumping in time, which means a psychological evolution can be cut down. (Slave to cinema)

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

The Boss of It All (Lars von Trier, 2006)

O pesquisador Tim J. Smith faz uma análise interessante em seu blog:

However, the natural instinct for framing is hard to overcome and it appears that Von Trier realised that his desire for completely un-framed shots would not be possible so long as he or his camera operator were controlling the camera. (…) If Von Trier is to create shots in which viewers are unable to predict what is the most significant part of a scene or how the camera is going to move he needs to take the human camera operator out of the equation. Hence, Automavision.

In a Von Trier film, as already discussed, the intention appears to be to encourage active search of the screen and disagreement between where different viewers look. With the addition of Automavision the likelihood that a viewer looks at a part of the scene that would traditionally be insignificant probably increase. (It Lookey like Lars Von Trier is at it again.)

Direção Procedural

Como vimos, o sistema Automavision atua sobre aspectos específicos da filmagem (enquadramentos e som), e o critério de variação é essencialmente arbitrário. Porém, acho interessante considerar a possibilidade de uma expansão desse conceito, talvez levando a uma espécie de “Direção Procedural”.

Isto é, da mesma forma que temos música e arte visual generativa – ou mesmo diagramação procedural, se considerar um uso aprofundado de estilos CSS em documentos html, por exemplo -, por que não um algoritmo que possa atuar como o “diretor” de uma experiência procedural, como um jogo por exemplo?

Isso é sugerido na citação a seguir:

As suggested by Mr. Smith’s closing comment “Anybody up for a game of Halo directed by Lars Von Trier?”, Automavision hints at a future time where cameras in-game aren’t just patterned after object recognition and collision detection, but also take into consideration more artistic merits, such as emotional impact and more ‘classical compositional’ attributes, as well as being able to mathematically deal with more auteuristic visual narrative elements. To re-use the film director analogy, imagine having the choice between having say, God of War directed by Von Trier (an incongruent and edit-happy, but still somewhat understandable, mess) or say, Spielberg with loads of low-angle pseudo-tatami shots? And why stop with directors, why not cinematographers? Roger Deakins has quite the eye, and maybe we could programmatically raise the ghost of Sacha Vierny. (Automavision & Lookey) [3]

Graus de Contribuição

Mas afinal, quem é o responsável pelos enquadramentos no filme The Boss of it All? O sistema computacional Automavision, seu desenvolvedor Peter Hjorth ou o diretor Lars von Trier, que (provavelmente ao lado do editor) escolheu os cortes e tomadas a serem utilizadas?

Em algumas ocasiões o sistema Automavision é creditado como Diretor de Fotografia, ou “Cinematógrafo” (a segunda posição de maior importância na produção de um filme, depois do Diretor). Isso soa um pouco exagerado ou forçado, afinal, a princípio o Automavision não realiza de fato estas funções (o algoritmo não leva em consideração conceitos ou teorias do cinema, nem pretende emular técnicas específicas de enquadramento, por exemplo).

De certa forma, é o contrário. Ele substitui as escolhas que seriam realizadas por um profissional humano, inserindo valores arbitrários no lugar.

Há ainda quem considere que a função do desenvolvedor do sistema não é apenas técnica – ele também seria um artista. Além do Automavision, Hjorth já produziu outros dispositivos e técnicas para o cinema (na página do filme no imdb, Hjorth aparece como responsável pelos “Efeitos Visuais”).

Peter Hjorth has worked to transform visual effects from technology to an art form, challenging concepts of perspective, space and movement using techniques like “massive multi camera” and Automavision™ “automated cinematography”. (Insight Outbroken link)

Na minha dissertação de mestrado proponho uma metodologia de análise para investigar as diferentes contribuições em uma determinada obra ou processo criativo, levando em consideração fatores como (1) a influência que um determinado fator tem sobre a poética, (2) a intenção do artista por trás das suas escolhas poéticas e (3) o ponto de vista a partir do qual o objeto de análise é considerado.

Ao tratar da atividade do artista que cria utilizando ferramentas tecnológicas, Arlindo Machado fala da noção de graus de contribuição (Machado, 1993). Isto é, de acordo com a proposta poética por trás de uma determinada obra, bem como as ferramentas e métodos empregados na sua produção, podem ser identificados diferentes graus de contribuição (ou influência) para cada um dos elementos e aspectos que participam, direta ou indiretamente, do processo criativo. (Poéticas procedurais) [4]

De qualquer maneira, embora uma análise desse tipo possa ser esclarecedora, nem sempre é possível saber ao certo as intenções e motivações por trás das escolhas no processo criativo de um artista.

Além do mais, convém lembrar que, apesar do experimentalismo e radicalismo no emprego de um sistema como o Automavision, as escolhas finais continuam sendo feitas por um ser humano. Lars decide quais cenas serão utilizadas, inclusive aprovando ou não os enquadramentos automáticos definidos pelos algoritmos no momento da filmagem.

A seguinte anedota ilustra bem isso:

One afternoon, everyone waited around for three hours, because the program kept pointing the camera at a blank wall. “Lars was furious with himself,” recalls the actress Iben Hjejle. “He said, ‘Why did I come up with this idea, the stupidest idea I’ve ever had?’
(Lars Von Trier’s funny turn)


Independentemente das intenções ou significados por trás do uso de um sistema como o Automavision, ele trata-se – ou ao menos sugere – uma estratégia criativa procedural, com um potencial poético (ou expressivo).

Isto é, considerando este aspecto em particular, um filme como The Boss of it All tem muito em comum com a Arte Conceitual e práticas similares (como é sugerido neste post). [5]


Links Relacionados

– Post sobre o sistema Verbasizer, utilizado pelo músico David Bowie.
Este artigo relaciona Automavision, Lev Manovich e Novas Mídias (em espanhol).
– Conheça Lookey, outro “experimento” de Lars aqui ou aqui.


  1. Não existe uma documentação definitiva a respeito do funcionamento exato deste sistema. Para este post me baseei principalmente no press release do filme, algumas entrevistas e artigos. A descrição do sistema varia um pouco entre estas referências (em uma delas, por exemplo, há menção de que o sistema também faz um ajuste de cor automático). Neste fórum um usuário esclarece algumas coisas, afirmando ser Peter Hjorth, o desenvolvedor do sistema. Segundo o próprio Lars, além da variação no enquadramento, o sistema também gera novas configurações para a captura do som da cena (de fato, no filme ocorre variações no som entre diferentes tomadas). []
  2. Esta postura é similar à do movimento Dogma 95, co-criado por Lars em 1995. O movimento pregava uma produção mais simples e direta – a iluminação tinha que ser natural, cenários e objetos não podiam ser trazidos de fora e enquadramentos eram desencorajados (a ideia era apenas apontar a câmera para a cena e filmar). É curioso observar, entretanto, que, enquanto em Dogma a simplicidade é buscada através da negação da tecnologia, em The Boss of It All o fator “enquadramento” é rejeitado utilizando justamente a tecnologia. Convém notar que o movimento Dogma não era seguido tão à risca pelos seus adeptos – era comum que as suas regras fossem quebradas ou subvertidas. []
  3. A citação de Smith refere-se a este outro post do autor sobre o assunto. []
  4. MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: o Desafio das Poéticas Tecnológicas. São Paulo: Editora USP, 1993. []
  5. Outro aspecto interessante sobre o uso do Automavision é o efeito do sistema no trabalho dos atores. “[O]ne of the main reasons for using Automavision was to ensure the actors couldn’t use any of their usual tricks. Thanks to the randomised framing and audio settings, they had no idea of how the camera was going to behave and therefore weren’t able to try to show off their best side or steal scenes. (Von Trier’s original idea had been to hide the camera altogether and film through a double mirror, “but we had too little light. We couldn’t do it”.)” (fonte) Obs: nos extras do DVD do filme há menção sobre os atores ficarem irritados com o uso da técnica. []

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1 Comentário »

  1. […] [Este post em português.] […]

    Pingback de Automavision (Lars von Trier) | 7luas — 2013/10/30 @ 10:45

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