DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Ópera Algorítmica instalação/artigo

Ópera Algorítmica

Editing will become the writing of a software program that will tell the computer how to arrange (i.e., shot order, cuts, dissolves, wipes, etc.) the information on the disc, playing it back in the specified sequence in real time or allowing the viewer to intervene.

(Bill Viola, 1995) [1]

Ópera Algorítmica (2011) é um projeto de instalação que propõe uma releitura do registro videográfico de uma performance. Na obra, o vídeo do artista plástico José Roberto Aguilar é reproduzido continuamente, de acordo com uma série de regras que definem cortes, repetições e ritmos em tempo real. Parceria com a artista Lucila Meirelles.

– Veja registros estáticos da execução da obra, em vídeo e imagens.
– Participou no ProcJam 2015 (post).
– Baixe um artigo (pdf) sobre a obra (resumo abaixo).


Estratégias criativas do remix

RESUMO: Ópera Algorítmica” é uma instalação de arte e tecnologia que consiste na manipulação em tempo real do registro videográfico de uma performance. Isto é feito através de algoritmos computacionais baseados em estratégias criativas do remix. Neste artigo descrevo esta instalação e examino a lógica por trás da obra, relacionando os algoritmos empregados à prática do remix.

Palavras-chave: estratégias procedurais de criação, processo criativo, remix

Por praticidade, o título desta obra geralmente aparece abreviado. O nome completo é:

Ópera Algorítmica Para Assobios, Ruídos, Gritos, Notas de Sitar, Socos no Piano, Aplausos, Movimentos de Câmera para a Esquerda, Direita, Cima, Zoom In e Zoom Out e Ritmos Diversos Baseada no Concerto de Piano de Cauda, Luvas de Boxe, Violino, Sítar, Trompete, 4 Letras de 2 Metros de Altura Formando a Palavra Arte, 2 Extintores de Incêndio e Instrumentos Vários, do Artista Plástico José Roberto Aguilar.

Este título deriva do (e contém o) título da performance original registrada no vídeo que serve de matéria-prima a esta instalação.

A performance original consiste em uma série de eventos de diversos tipos acontecendo em um palco. O registro em vídeo da performance também apresenta eventos próprios (como os movimentos de câmera, por exemplo). Todos esses eventos compõem uma espécie de “biblioteca” que o algoritmo da instalação utiliza como base na sua execução.

No percurso do artigo, apresento a instalação, descrevendo brevemente a sua montagem e funcionamento a partir do ponto de vista do público. Em seguida, examino a lógica por trás da obra, relacionando as funções e trechos de código empregados às estratégias criativas associadas à prática do remix.

O Algoritmo

O processo de “meta-criação” envolvido nesta obra, aplicado no contexto computacional, resgata uma abordagem quase conceitual ao processo criativo (Plaza, 1991:1781 apud Tavares, 1995:16). [2]

A formalização de estratégias criativas da mente criadora na forma de um algoritmo computacional também remete ao conceito do “gesto depositado”, “que se tornou estereotipia e poder de repetição.” (Simondon, 19697 apud Santos, 1994:48). [3]) [4]

A “Ópera Algorítmica” pode exibir até sete modos de operação, baseados em dezenas de “tipos” de cena (como “assobios”, “socos no piano” ou “movimentos de câmera”, por exemplo). No artigo estes modos são descritos em detalhe.

“Novas Auras”

A intenção deste artigo é, através da análise da instalação “Ópera Algorítmica”, na qual as estratégias criativas do remix se encontram traduzidas (ou “depositadas”) na forma de instruções computacionais, propor uma reflexão sobre as práticas criativas procedurais, bem como sobre o emprego das mídias digitais na expressão artística de uma maneira geral.

O filósofo Walter Benjamin afirma que a obra de arte “na era da reprodutibilidade técnica” torna-se política e perde a sua “aura” (Benjamin, 1994). Mas a questão talvez não seja tanto em buscar preservar e reproduzir esta “aura” da arte tradicional (ou lamentar sua suposta perda), mas sim de identificar “novas artes” (e “novas auras”) relativas a estratégias expressivas próprias ao meio digital [5]


O algoritmo utilizado nesta obra foi adaptado para o experimento generativo de arte sonora Manafon Remix (post).


New talents and skills are needed in making programs — this is not editing as we know it. (…) After all these years, video is finally getting “intelligence,” the eye is being reattached to the brain. As with everything else, however, we will find that the limitations emerging lie more with the abilities and imaginations of the producers and users, rather than in the tools themselves.

(Bill Viola, continuação da citação no início deste post)


Produzido em Actionscript (Flash).

[Publicado em 2011/10. Editado em 2013/08/28, 2014/01/28 e 04/04.]


  1. Bill Viola é videoartista e também trabalha com novas mídias. Citação do texto “Will There Be Condominiums in Data Space?”, obtido da coletânea The New Media Reader. []
  2. TAVARES, Monica. Os Processos Criativos com os Meios Eletrônicos. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Instituto de Artes – Multimeios, Campinas, 1995. []
  3. SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existence des objets techniques. Aubier-Montaigne, 1969. (Coleção Analyse et raisons, v. 1 []
  4. SANTOS, Laymert. O homem e a máquina. Revista Imagens, Editora da UNICAMP, n. 3, p. 46-49, dez. 1994. []
  5. Este artigo foi elaborado no contexto da disciplina “Princípios do remix” (CAP-5788, PPGAV/ECA/USP), ministrada pelo Prof. Dr. Eduardo Antonio Navas e pela Profa. Dra. Monica Tavares no primeiro semestre de 2012. Também tomei como base minha dissertação de mestrado e o texto do projeto da instalação “Ópera Algoritmica”, redigido por mim em conjunto com a co-autora da obra Lucila Meirelles. []

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