DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Wilson (Daniel Clowes, 2010) resenha

Wilson é a mais recente (2010) graphic novel de Daniel Clowes, autor de obras fantásticas como Ghost World (1997) e Like a Velvet Glove Cast in Iron (1993).

Sempre me atraiu a maneira como este autor consegue comunicar de maneira tão econômica e direta os temas e sentimentos mais complexos (como o clima surreal da narrativa em Like a Velvet Glove, por exemplo). Quem já conhece o trabalho de Clowes vai reconhecer em Wilson o seu humor negro singular, que dá o tom para esta tocante história sobre a vida patética, poética e filosófica de um quarentão amargo e solteirão.

Obs: este post contém spoilers!

A princípio o livro parece tratar-se de uma sequência de situações isoladas (uma por página), tendo em comum apenas a presença do protagonista. Mas gradualmente estes breves recortes da vida de Wilson começam a se organizar em torno de um enredo. A história em si, embora pouco original ou mesmo emplogante, surpreende e intriga, principalmente pela maneira como o leitor é timidamente (quase sorrateiramente) apresentado a cada nova revelação.

Dificilmente o leitor se identificará com a personalidade ou as escolhas de Wilson, mas as angústias do personagem são universais – sua desilusão com a humanidade, comportamento bipolar e visão crítica do mundo. Clowes ainda alfineta alguns grupos em particular, como os religiosos, os nostálgicos, os hipsters e os “conectados”.

“If I’m connected to so many people, why do I feel so profoundly alone every time I turn this thing on?”

Também é interessante a maneira como o traço empregado pelo autor para desenhar Wilson e o mundo ao seu redor muda a cada nova situação, ora de maneira realista, ora caricatural.

É um artifício que Clowes já empregou outras vezes, como em Ice Haven (2005), no qual Clowes também alterna entre um estilo caricatural, quase infantil, e um mais realista. Outro exemplo é David Boring (2000), que tem determinadas porções da sua narrativa representadas com um estilo de  “quadrinhos de super-herói”.

Apesar de todas as aventuras pelas quais passa o protagonista, e da sugestão de que sua vida de alguma forma muda ou é transformada pelos eventos narrados, a minha impressão final é de que Wilson é simplesmente um fracassado.

Com toda a sua inteligência e capacidade de refletir e filosofiar sobre a humanidade, Wilson nunca parece ter maturidade ou foco para organizar a sua propria vida.

Me incomoda um pouco a forma como a estrutura fragmentada do enredo, ao mesmo tempo que intriga e atrai o leitor, também acaba tornando o conjunto de certa forma instável – em alguns momentos os “gags” e piadas pontuais parecem distrair do enredo principal, e vice versa.

Mas no geral esta graphic novel é uma ótima leitura. A amargura e o tédio da vida de Wilson parecem amenizar a mediocridade das nossas próprias existências, de certa forma celebrando a tragédia (e a beleza) do ser humano.

“I’m so fucking sick of feeling bad; sick of worrying about my mortality and the goddamn loneliness of the human condition (…) I am a beautiful creature! I’m a living monument to nature’s genius! I’m alive and breathing and strong! [I’m] a million-in-one fucking miracle!”

Difícil saber se isso é ironia, insanidade ou um sentimento genuíno e duradoro. Talvez os cachorros mereçam mesmo mais carinho e atenção do que as pessoas. Talvez seja essa a epifania final.

Obs: mais sobre Clowes neste post.

[Publicado 2011/11/04. Editado 2016/11/12.]


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