DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA

Sofá Equilibrista arte
Uma Metáfora Cinética Sobre o Risco nas Relações Sociais

O “sofá equilibrista” é uma das primeiras coisas que o visitante do FILE 2013 vê quando entra na exposição. A instalação, chamada Balance From Within (Jacob Tonski, 2012), consiste em um sofá antigo equilibrado em apenas um dos pés (o link leva para o site do artista, onde há um vídeo da obra). [1]

Embora possa não parecer à primeira vista, talvez esta seja uma das coisas mais legais no FILE em muitos anos. Principalmente porque foge da armadilha da “interatividade”, que tanto atrai visitantes (e curadores; e artistas).

Balance From Within (Jacob Tonski, 2012)

Balance From Within (Jacob Tonski, 2012)

Uma Metáfora Cinética Sobre o Risco

Na citação a seguir, o artista explica a sua intenção por trás desta instalação.

The project had two unique technical and artistic goals. The primary one was to create a kinetic metaphor for the inherent risk in social relations, which was authentic, rather than illusory. Secondarily, I was interested in whether an object could actually be balanced perpetually on a fixed point.

Jacob Tonski – Prix Ars Electronica 2014
(declaração do artista; grifo adicionado)

Curiosamente, não fica completamente claro na declaração de Tonski se ele considera ambos os objetivos da obra – a reflexão sobre o risco e a possibilidade do equilíbrio perpétuo – como sendo de natureza técnica e artística, ou se cada objetivo se refere a um destes aspectos.

De qualquer maneira, o artista deixa clara a sua intenção poética de representar, através do sofá em equilíbrio, uma metáfora para o risco inerente às relações sociais.

Interatividade Obrigatória

Apesar da importância do FILE no cenário da arte tecnológica, já faz algum tempo que o festival deixou de ser tão relevante – isso não diz tanto sobre a organização do festival em si quanto sobre o amadurecimento do público (cada vez mais difícil de “surpreender”). O fato de que hoje em dia as pessoas estão mais familiarizadas com a “linguagem do digital” é um bom sinal (mais sobre isso neste post).

A questão é que grande parte das obras expostas no FILE tendem a reproduzir os clichês da “arte tecnológica” – principalmente o da interatividade. [2]

Um aviso ao lado do sofá de Balance from Within pede justamente que os visitantes não toquem na obra. A interatividade se dá unicamente entre o sistema computacional e as forças da gravidade. Isso garante o foco no aspecto que diferencia de fato a “linguagem digital” das demais formas expressivas, que é a sua programabilidade e autonomia. [3]

Arte de Apropriação

A princípio duvidei que aquele sofá estava de fato equilibrando-se constantemente – parecia estar simplesmente pregado no chão, imóvel. Talvez se o artista tivesse criado um sistema menos eficiente, levando a mais movimentos na tentativa de atingir o equilíbrio – mas acredito que isso não seria viável, principalmente por questões técnicas.

A maior parte dos algoritmos e peças que compõem a obra não são criação do seu autor, mas isso não importa. De certa forma Balance From Within pode ser vista como uma obra de Arte de Apropriação (wikipedia; em inglês), envolvendo a apropriação de diversos elementos e conceitos de diferentes naturezas, tipos e origens, o principal sendo talvez a ideia do equilíbrio.

Nota: convém mencionar que evidentemente há mais elementos em jogo nesta instalação, além da expressividade no sistema computacional. A escolha de um sofá como o objeto em equilíbrio, por exemplo, é significativa (como o artista explica na sua declaração – veja o link na citação acima). Eu concentro a minha análise no elemento procedural por conta de ser este o foco da minha pesquisa.

[Post criado em 2013/08/13. Atualizado 2015/02/02.] [4]


  1. Fonte da imagem: site do artista. []
  2. Trato sobre esta questão em maior profundidade na minha dissertação (aqui). []
  3. No contexto deste post estou tratando apenas da interatividade exógena, entre o sistema computacional e o mundo externo (ao invés da interação endógena, isto é, entre elementos do próprio sistema). []
  4. Atualização em 2015/02/02 para a inclusão da declaração do artista e outras edições pontuais, feita na ocasião da publicação deste outro post, que faz referência a este. []