DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
MATE-ME POR FAVOR livro

O livro MATE-ME POR FAVOR (McNeil e McCain, 1997) é 80% sobre sexo, drogas e fofocas sobre as estrelas do (punk) rock. Mas também tem passagens interessantes sobre a indústria musical, processo criativo e outras coisas bacanas e divertidas.

Compilei algumas das minhas preferidas abaixo (eu ia separar por tema, mas pra simplificar mantive a ordem semi-cronológica do livro).

John Cale (ex-Velvet): Lá por 1965 Lou já tinha escrito “Heroin” e “Waiting for the Man”. Encontrei Lou pela primeira vez numa festa, e ele tocou suas canções num violão, por isso não prestei a menor atenção, porque eu estava cagando pra música folk. Eu detestava Joan Baez e Dylan – cada música era uma porra de uma pergunta! Mas Lou continuou me infernizando com aquelas letras. Eu li, e elas não eram o que Joan Baez e aquela gente toda estava cantando. Naquela época eu estava tocando com La Monte Young no Dream Syndicate, e a proposta do grupo era tocar cada nota durante umas duas horas.

Paul Morrissey: A primeira coisa que percebi no Velvet Underground foi que eles não tinham um vocalista, porque Lou Reed ficava muito sem jeito como performer. Acho que ele se forçava a fazer aquilo porque era muito ambicioso, mas Lou não era um performer natural.

Al Aronowitz: (…) Mas sempre tive um mau pressentimento em relação à Factory porque todos aqueles freaks arrogantes me davam nojo com sua arrogância e seus maneirismos, o jeito como andavam, se pavoneando por lá. Era tudo pura pose. Nico se tornou uma deles – estava fazendo a mesma coisa -, mas escapou impune porque era muito bonita, da mesma forma que muita gente perdoou um monte de coisas em mim porque eu escrevia bem.

Danny Fields: Todo mundo era apaixonado por todo mundo. (…) Mas as pessoas que mais se apaixonavam eram as que, acho eu, menos trepavam – como Andy. (…) Não havia realmente muito sexo, havia mais tesão que sexo. Sexo era muito complicado. Ainda é.

Susan Pile: As pessoas faziam coisas estranhas quando tomavam speed. Teve um cara que apareceu no Max’s Kansas City com o braço numa topóia. Todo mundo perguntou: “O que aconteceu com você?” Ele disse: “Oh, tomei um pico de speed e não consegui parar de pentear meu cabelo durante três dias.”

Iggy Pop: A primeira vez que ouvi o disco do Velvet Underground e Nico foi numa festa no campus da Universidade de Michigan. Simplesmente odiei o som. Sabe como é: “COMO É QUE ALGUÉM PODE FAZER UM ÁLBUM COM UM SOM DE MERDA DESSES? ISSO É NOJENTO! TODA ESSA GENTE ME DÁ NO SACO! GENTALHA HIPPIE FODIDA! BEATNIKS FODIDOS, SOU A FIM DE MATAR TODOS ELES! ESSE SOM É UM LIXO!” Depois, uns seis meses mais tarde, o disco me pirou. “Oh, meu Deus! UAU! Esse é uma porra de um disco genial!” Este disco se tornou importantíssimo para mim, não só por causa do que dizia e por ser tão maravilhoso, mas também porque ouvi outras pessoas que sabiam fazer uma música boa – sem serem nada boas em música. Isto me deu esperança. Foi a mesma coisa que na primeira vez que ouvi Mick Jagger cantando. Ele só consegue cantar uma nota, não tem inflexão nenhuma, e só vai: “Hey, well baby, I can be oeweowww…” Toda canção é no mesmo tom invariável, e é só aquele garoto dizendo as letras. Foi o mesmo com os Velvets. O som era tão simples e ainda assim tão bom.

Scott Asheton: Iggy tinha raspado as sobrancelhas. Nós tínhamos um amigo chamado Jim Pop que tinha distúrbios nervosos e havia perdido quase todo o cabelo, incluindo as sobrancelhas. Por isso, quando Iggy raspou as sobrancelhas, a gente começou a chamá-lo de Pop. Estava quente pra cacete no Ballroom naquela noite, Iggy começou a suar e aí descobriu pra que servem as sobrancelhas. Perto do fim do show, os olhos dele estavam totalmente inchados por causa de todo aquele creme e purpurina.

Ron Asheton (Stooges): A gente inventou alguns instrumentos que usou no primeiro show. A gente pegou um liquidificador com um pouco de água e colocou um microfone bem embaixo dele e ligou. Tocamos isto por uns quinze minutos antes de entrar no palco. Era um som incrível, especialmente saindo das caixas de som, todo desconjuntado. A gente tinha uma tábua de lavar roupa com microfones. Então Iggy calçava sapatos de golfe e subia na tábua de lavar e ficava meio que arrastando os pés por ali. A gente pôs microfones nos galões de sessenta litros de óleo que Scotty tocou, e ele usou dois martelos como baquetas. Peguei emprestado até o aspirador de pó da minha mãe porque o som parecia o de um motor a jato. Sempre adorei aviões a jato. VVVVVRRRRR!

Iggy Pop: Ela gostava de dormir à noite mais do que qualquer coisa e eu gostava de dormir quando bem entendia. Gosto de tocar guitarra a qualquer hora. Então uma noite tive uma idéia pra uma canção – bem no meio da noite -, mas ali estava aquela mulher na minha cama. Subitamente isto me bateu, naquele exato instante: era impossível. Tinha que ser uma ou outra: ela ou a carreira.

Patti Smith: Comecei a fazer sucesso escrevendo aqueles poemas longos, quase poemas de rock & roll. E gostava de apresentá-los, mas percebi que, embora fossem maravilhosos apresentados, não eram grande coisa no papel. Não estou querendo dizer que os renego, mas existe um certo tipo de poesia que é poesia de performance.

Dee Dee Ramone: (…) [Joey] experimentou fazer fitas de sons diferentes. Uma vez a gente foi no apartamento da mãe dele, que era no vigésimo andar. Estava relampejando, e ele botou o microfone do gravador no parapeito pra gravar o trovão. E o raio atingiu o microfone e queimou tudo. Às vezes ele me fazia bater a bola de basquete por meia hora e gravava. E depois escutava aquilo o dia todo, deslumbrado.

Richard Hell: Na verdade eu não era talhado pra ser um músico profissional de rock & roll. (…) Quando comecei, tive um tipo de empolgação com aquilo. Tive exatamente o que quis. (…) Mas isto se desfez rapidamente. Minhas metas pra música e coisa e tal eram completamente fora do convencional, e aí ficou difícil. Também não gosto de estar na estrada. E nunca consegui entender o que acontece entre um artista e sua platéia, pelo menos quando o artista em questão sou eu. Nunca gostei de ir em concertos. Não entendo pra que as platéias vão a concertos. Não entendo mesmo. Não entro nesta coisa de união que ouço as pessoas descrever. Senti isso num jogo do Knicks; gostei daquela vibração e excitação durante o último tempo do jogo, mas não sinto isso em shows de rock & roll. Não gosto de estar lá com todas aquelas pessoas; quando ficavam olhando pra mim quando eu estava no palco – eu ficava muito desconfiado com aquilo. Eu era muito desdenhoso em relação a todo aparato. Era bem evidente o quão vazia era aquela porra toda.

Richard Lloyd (Television): (…) Quando ouvimos o primeiro disco dos Cars, dissemos: “Uh, oh. Isso é como a nossa música, mas no estilo comercial. Isso vai tomar nosso lugar.” (…) Sempre fomos peculiares. Tom escreve letras que parecem de triplo sentido e não tinha voz de cantor. (…) Não é uma voz própria pra rádio, isto é certo.

Dee Dee Ramone: Rock & Roll no piloto automático meio que desensibilizou minha revolta. (…) Eu também estava farto do visual de garotinho, o corte de cabelo tigela e a jaqueta de motoqueiro. Eu não queria ser um garotinho. Eu não crescia. Quatro sujeitos de meia-idade bancando os delinqüentes juvenis.

PS: alguns trechos tive que transcrever na mão, então pode ter alguns erros de digitação aí.


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2 Comentários »

  1. esse é um livro de formação.

    Comentário de erica — 2011/08/28 @ 20:54

  2. […] trechos de livros: – Mate-Me Por Favor – A Figura […]

    Pingback de Paulo Leminski | 7luas — 2013/09/18 @ 18:24

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