DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Making of do filme 360 making of

Para quem gosta de cinema, ou de “making-of’s” de uma maneira geral, recomendo os blogs de produção dos filmes do diretor Fernando Meirelles. Acompanhei o blog do Ensaio Sobre a Cegueira (2008), e agora descobri o registro da produção do excelente 360 (2011). Meirelles escreve de maneira objetiva e aberta sobre uma variedade de temas, desde escolhas técnicas, relacionamento com os atores até angústias e problemas na produção.

Selecionei abaixo alguns trechos que me chamaram a atenção. No final deste post, também explico um pouco sobre o meu interesse no processo criativo, relacionando com minha pesquisa sobre a expressividade procedural.

 

Processo criativo

Na próxima semana, começam as visitas técnicas. Preciso urgentemente inventar uma desculpa para não poder estar presente. Meu tempo é mais bem gasto se puder ficar lendo e relendo o roteiro, assistindo filmes para ver o que posso copiar ou mesmo voltar às locações, mas sem 15 pessoas ao redor, para poder deixar a cabeça viajar sem pressão. Antes as idéias aproveitavam qualquer brecha para entrar, hoje, prefiro ajudá-las, criando um certo espaço mental para elas aparecerem.

 

Tenho enorme interesse em saber qual estrada cada ator pega para entregar sua encomenda, gosto do assunto não só para saber como tocá-los, mas também pelo prazer de observar  quão maleável e flexível pode ser a mente humana. Caminhos absolutamente opostos podem levar a um  mesmo lugar.

 

A estética do filme

[H]á uma onda no mercado de filmes que parecem vídeo games ou desenhos animados de tão nítidos, principalmente os filmes de super-heróis e isso está virando um padrão (algum crítico espertinho diria que são “pornográficos”, de tão explícitos). A idéia destes filmes parece ser colocar cada vez mais o espectador dentro do espetáculo, catarse em 3D.

Em 360 tomamos o caminho contrário; a idéia aqui talvez seja colocar o espectador dentro de sua própria cabeça e para fazer isso [a imagem granulada] pode ajudar, já que funciona como uma espécie de véu entre o objeto fotografado e quem está assistindo.

Ao escondermos um pouco a imagem estaremos sugerindo mais do que explicitando, deixando um espaço para que o espectador complete em sua cabeça o que não vê na tela. Para um filme sobre emoções, sobre camadas da nossa psique, talvez seja interessante fazer isso.

 

(Falta de) controle

Das poucas coisas que já aprendi sobre mim mesmo, uma delas é a necessidade que tenho de não saber fazer alguma coisa para poder fazer direito. O conforto me deixa preguiçoso, me emburrece; aprendi isso. Melhor não estar muito no controle e andar um pouco em áreas escuras.

[J]á desisti de tentar criar o filme no papel, faz tempo. Assumi minha infidelidade, as minhas próprias idéias ou minha burrice para conseguir planejar tão detalhadamente. Simplesmente, não tenho controle sobre o mar da minha cabeça, então só me resta surfar na onda que aparecer na hora.

 

Montagem

Tanto como o roteirista, o montador tem um lado autoral e quando se tem um bom autor na sala de montagem é besteira não deixá-lo mostrar a sua versão do filme.

 

Finalizar e seguir em frente

A minha prioridade agora é (…) tirar da frente este filme. Não há nenhuma amargura nessa intenção. É questão prática. Me apavora a perspectiva de ter que ficar fazendo promoção de “360” até junho do ano que vem. A vida é para frente. Este está acabado. Que venha o próximo.

 

PS: O Cinema me interessa como linguagem, principalmente pela clareza como se manifestam as suas estratégias expressivas (o enquadramento, o corte, a fotografia etc). Nem todo mundo entende de Cinema (eu certamente não), mas em comparação com outras linguagens, esta é uma das formas de arte mais populares e acessíveis (diferentemente da dança, por exemplo).

Tenho uma pesquisa na qual investigo as possibilidades expressivas dos algoritmos computacionais, uma linguagem artística relativamente nova, ainda em fase de amadurecimento. Daí meu interesse no processo criativo, e porisso constantemente busco relações e traço comparações entre esta “nova” forma de expressão e outras mais consolidadas, como é o caso do Cinema, por exemplo.

Sabia mais sobre minha pesquisa no blog Máquina Criadora.


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