DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Gödel, Escher, Bach: Eternal Golden Braid fichamento

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Neste texto trato brevemente do intrigante livro Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid, de Douglas R. Hofstadter (1979).

O autor dedica grande parte das 777 páginas do livro a questões de lógica e filosofia da matemática (baseando-se principalmente em Gödel), ricamente discutidas com a ajuda de Diálogos fabulosos envolvendo carangueijos, tartarugas e outros seres imaginários (ao estilo de Lewis Carroll), bem como analogias musicais (via Bach) e visuais (Escher).

A mim interessou especificamente a discussão mais ampla que ele realiza da relação entre os processos internos da mente humana e a lógica das máquinas (principalmente na segunda parte do livro).

IRRACIONAL X COMPUTACIONAL
Na minha pesquisa eu investigo o processo de tradução da poética do artista para os meios digitais. Uma das principais discussões dentro deste tema é a suposta contradição que emerge do uso de um dispositivo tão lógico e racional como o computador para representar algo tão subjetivo e irracional como a expressão artística.

Hofstadter explica que esta suposta oposição entre o irracional e o computacional é uma confusão causada por uma falta de compreensão dos diferentes níveis de entendimento dos quais ele trata (todas as traduções abaixo são de minha autoria).

Esta noção de que irracionalidade é incompatível com computadores reside em uma grave confusão de níveis (…) A idéia de que, já que os computadores são máquinas infalíveis, elas são portanto restritas a serem ‘lógicas’ em todos os níveis.

Um cérebro também é uma coleção de elementos infalíveis – neurônios. Sempre que o [limiar de ativação] de um neurônio é ultrapassado pela soma dos sinais de entrada, BANG! – ele dispara (…) Porém, como sabemos, neurônios são perfeitamente capazes de dar suporte a um comportamento de alto nível considerado como errado no seu próprio nível.

Não há porque acreditar que o funcionamento infalível de um hardware não possa dar suporte a um comportamento simbólico de alto nível capaz de representar estados tão complexos como confusão, esquecimento ou apreciação da beleza.

Vale ressaltar que a discussão do computador como uma máquina pensante (ou mesmo criativa) vai um pouco além do escopo da minha pesquisa, na qual trato da máquina como criadora, mas não criativa.
AUTORIA
O autor também toca de certa forma na questão da autoria na relação colaborativa entre o artista digital e a máquina:

E se um programa de Inteligência Artificial tem uma idéia (…) que o seu programador nunca considerou – quem deveria ganhar o crédito?

Nesses casos, o humano pode ser referido como o meta-autor – o autor do autor do resultado, e o programa como (simplesmente) autor.

Se e quando (…) forem desenvolvidos programas que possuem [flexibilidade, perspectiva sobre o que se está fazendo e consciência de si mesmo], sugiro que este será o momento adequado para começar a dividir-se a atenção: parte para o programador, por criar um programa tão incrível, e parte para o programa em si, por seu [senso artístico].

Mas até lá, eu não me sentirei confortável em dizer “esta obra foi composta por um computador”.


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