DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Fluência Procedural pesquisa

Na palestra Let’s teach kids to code (TED), Mitch Resnick (MIT Media Lab) fala de maneira precisa e esclarecedora sobre o tema da fluência em meios digitais.

Ele explica a importância de que as pessoas saibam lidar com a linguagem dos computadores com a mesma fluência com que lidam com a linguagem verbal.

Fluência Procedural

Uma maneira de compreender a importância da fluência procedural é fazendo uma comparação com a fluência na linguagem escrita.

Ser fluente em um idioma permite ao indivíduo na sociedade moderna compreender o mundo ao seu redor, se comunicar, se expressar e defender seus direitos e interesses.

Da mesma maneira, a compreensão dos mecanismos do meio digital (a “fluência procedural”) dá ao indivíduo controle e senso crítico para lidar com os sistemas computacionais que permeiam a vida moderna, desde a comunicação pela internet, passando pelos sistemas que controlam tráfego aéreo até o caixa da padaria da esquina.

Isso não significa saber programar da mesma maneira que um programador profissional. Há diferentes níveis de abstração pelos quais é possível lidar com conteúdo procedural. Além do mais, mesmo para quem não é um produtor de conteúdo, a simples compreensão dos mecanismos de funcionamento do código computacional já faz uma grande diferença.

É importante deixar claro que este conceito de fluência procedural não se refere ao uso mais comum do computador, como simulação de meios e mídias anteriores – por exemplo, para escrever um texto, criar uma planilha, trocar mensagens e assim pro diante. Ter fluência procedural significa compreender a lógica do código computacional e a natureza fundamentalmente procedural das mídias digitais.

Scratch

Mitch Resnick é parte da equipe que vem desenvolvendo nos últimos anos a linguagem de programação visual Scratch no MIT Media Lab. Por conta da sua abordagem simples e clara, Scratch tem um grande potencial didático para quem está interessado em aprender a programar. Neste sentido, é como se fosse uma versão mais sofisticada de projetos como a linguagem Logo (1967).

Me parece que a fala de Resnick tem um tom de “pregação”, de quem está tentando convencer um público que não parece estar compreendendo plenamente (ou se importando) com a sua mensagem.

Esta questão não é nova – o cientista de computação Alan Kay, por exemplo, tem atuado nesta área há quase duas décadas. Mas o progresso é lento, principalmente por conta da resistência das pessoas a se aprofundarem nas “entranhas” da tecnologia, vista como fria e complicada demais.

Procedural x Estático

Na palestra de Resnick, o momento em que Resnick demonstra o jogo Hungry Bat é particularmente interessante e esclarecedor. Trata-se de um jogo bastante simples, no qual o vôo de um morcego é controlado pelo volume de som no microfone do computador. A platéia é convidada a jogar, e imediatamente o grupo (formado por dezenas de pessoas) compreende a mecânica do jogo e passa a controlar o vôo do morcego com gritos, fazendo o avatar na tela capturar insetos e desviar de obstáculos.

Fica claro o caráter singular de um conteúdo de natureza procedural, em oposição a outras mídias e linguagens tradicionais, como a fotografia, o cinema ou a música. Nestas linguagens tradicionais, o conteúdo apresentado é de natureza linear, ou estática. No caso do conteúdo procedural, o público não recebe apenas os estímulos textuais, visuais, auditivos ou táteis, mas também é convidado a perceber ativamente as regras, leis ou comportamentos que regem este conteúdo (e, no caso de um jogo como Hungry Bat, interagir com este universo de leis).

Note que, como toda recepção é fundamentalmente ativa, a princípio mesmo uma pintura ou poema podem levar a um processo semelhante a este – por exemplo, um personagem da literatura pode passar a existir na mente do leitor como uma “personalidade” dinâmica (permitindo inclusive que o leitor possa pensar o que tal personagem faria em uma determinada situação hipotética). A diferença no caso das mídias digitais está no fato de que, neste caso, estes comportamentos podem de fato existir codificados no algoritmo (ao invés de apenas na mente do artista e do seu público).

No jogo digital esta idéia se torna particularmente evidente, mas esta é uma característica que pode ser compartilhada por qualquer produção de natureza prodedural. A facilidade com a qual o público apreendeu a mecânica do jogo no vídeo da palestra de certa forma ilustra o potencial da proceduralidade como meio de comunicar e expressar idéias de uma maneira singular, diferente de qualquer outra linguagem ou mídia anterior.

Novas Formas de Pensar

Na conclusão da palestra, Resnick explica ainda que a fluência procedural não deve ser vista como algo que interessaria apenas aos profissionais em áreas associadas à tecnologia.

Assim como nem toda criança que aprende a escrever se torna uma escritora ou jornalista, aprender a programar não deveria se limitar apenas a quem deseja se profissionalizar nesta área. A compreensão da lógica dos computadores – a fluência procedural -, mais do que uma ferramenta com utilidade prática, também consiste em uma espécie de inteligência ou forma de pensar.

Da mesma maneira que o conhecimento de uma linguagem verbal equipa o indivíduo com formas e estratégias de raciocínio e reflexão que não existiriam de outra maneira (e que além disso se ampliam com o aprendizado de novos idiomas), a fluência procedural tem o potencial de trazer ainda outras estratégias e formas de pensar, de outra natureza.


Obs: editado em 2013/08/02.


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