DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Escrevendo com LyX/LaTeX pesquisa

Neste post eu comento sobre a minha experiência usando o aplicativo LyX para organizar, escrever e preparar para impressão a minha dissertação de mestrado, concluída no final de 2011 (post |pdf).

Encontrei muitas vantagens no LyX em comparação com as opções mais tradicionais (como o Word, por exemplo), mas também muitos problemas. Resolvi publicar aqui os prós e contras para me ajudar a decidir se continuo usando o LyX na minha pesquisa, e também para ajudar outros que eventualmente possam se beneficiar destas informações.

 

Forma / Conteúdo

LyX é uma interface gráfica para o sistema (ou linguagem) de notação LaTeX. Em primeira vista, o LyX é semelhante a um processador de texto tradicional, porém há diferenças fundamentais. Para quem não é familiarizado com o LaTeX, segue uma descrição baseada nos sites dos links acima (grifos meus):

LaTeX (…) is a document markup language and document preparation system (…) widely used in academia (…), based on the idea that authors should be able to focus on the content of what they are writing without being distracted by its visual presentation.

LyX combines the power and flexibility of [LaTeX] with the ease of use of a graphical interface.

Para exemplificar, as duas imagens dos links a seguir representam um trecho da minha dissertação como ele aparece (1) dentro da interface gráfica do LyX e (2) no documento final. (para quem se interessar, sugiro ler mais sobre o LyX e o LaTeX – este post é apenas um relato da minha experiência pessoal)

 

Prós e Contras

Algumas das principais vantagens que achei no LyX/LaTeX:

  • separação forma/conteúdo permite concentrar no texto;
  • é gratuito, de código aberto, com uma comunidade ativa;
  • indexação de autores, referências e temas (permite a geração automática do índice remissivo, por exemplo);
  • integração com o sistema de gerenciamento de referências BibTeX;
  • sistema dinâmico de referências internas entre trechos, seções e capítulos;
  • a praticidade do “outline”, uma janela contendo a estrutura do texto, atualizado automaticamente de acordo com a hierarquia de capítulos, seções e assim por diante;
  • os “insets”, que funcionam como uma espécie de pasta contendo diferentes tipos de conteúdo, e que podem ser inseridos em qualquer ponto do texto, e podem ser expandidos ou fechados (os insets podem ser notas de rodapé, notas ou elementos gráficos, por exemplo);
  • grande flexibilidade na customização da formatação e aparência dos elementos textuais (como os “breadcrumbs”, por exemplo).

 

Mas os obstáculos não foram poucos. Estes são alguns dos principais problemas que encontrei (note que a maioria destas questões se deve ao fato do LyX ainda ser um projeto em desenvolvimento):

  • instabilidade, bugs e crashes constantes (comigo dava problema pelo menos uma vez por dia, em média);
  • funcionalidades incompletas e problemas de compatibilidade entre diferentes bibliotecas e componentes;
  • certas modificações e customizações básicas são demoradas, difíceis e em alguns casos impossíveis de serem realizadas (ou exigiam modificações complexas no código LaTeX);
  • em particular tive problemas na formatação das referências bibliográficas de acordo com as normas exigidas pela minha instituição (apesar da grande flexibilidade que o sistema permite na customização deste elemento, faltaram alguns detalhes, tornando necessário criar a seção manualmente, ao invés de utilizar o texto gerado automaticamente pelo aplicativo);
  • demora em exportar o documento final para impressão (nos estágios finais da pesquisa a compilação do documento completo estava levando cerca de 10 minutos);
  • apesar do LyX possuir um dicionário e corretor ortográfico em português, a hifenização não funcionou – tive que definir a quebra de sílabas manualmente para centenas de palavras (adicionalmente, seria útil a possibilidade de ignorar certos elementos na correção ortográfica, como o conteúdo dentro das notas, por exemplo);

 

Aproveito para citar algumas questões que eu considerei como limitações ou oportunidades de melhoria do aplicativo:

  • o mecanismo de busca poderia ser mais flexível, permitindo por exemplo a opção por incluir as referências bibliográficas (como nome de autor, ano e título da publicação) no universo de busca, bem como excluir o texto dentro das notas – uma opção para buscar apenas o texto em uma certa categoria, como nas referências, notas ou notas de rodapé também seria útil;
  • o indicador de um “inset” (recurso mencionado acima) fechado poderia ser menor e mais sutil, como um ícone, por exemplo – por conta de tratar-se de um recurso muito prático, ele acaba sendo muito utilizado ao longo do texto, tornando-o um tanto poluído;

 

“Conclusão”

Um consenso entre os adeptos e os não adeptos do LaTeX é de que esta é uma solução para os chamados “heavy users” – isto é, para quem tem a capacidade (e a vontade) de fuçar um pouco (ou muito) no código fonte. As interfaces gráficas (como o LyX) certamente minimizam este obstáculo, assim como os modelos (ou “classes”) pré-definidas para certos tipos de documentos, como artigos e livros, por exemplo. Porém, pela minha experiência, é inevitável ter que lidar com o código fonte pelo menos um pouco.

Minha conclusão é de esta não é uma solução para todos – o sistema tem suas vantagens e desvantagens, forças e fraquezas. Mas pode ser a solução mais adequada para um certo perfil de usuário, de acordo com as suas necessidades, gostos e capacidades específicas. O LyX é mais adequado a quem deseja ou precisa de um alto grau de customização na formatação do seu documento, que tenha pelo menos um pouco de familiaridade com programação, e que esteja disposto a dedicar um certo tempo resolvendo os inevitáveis bugs e dificuldades que encontrará pelo caminho.

De qualquer maneira, para quem se interessou, recomendo ler mais a respeito, e eventualmente experimentar o aplicativo, de forma a tirar as suas próprias conclusões. Mas sugiro deixar para fazer isso com tempo, pois a curva de aprendizado é um pouco íngreme (não use para escrever um artigo que precisa ser entregue em alguns dias, por exemplo).

 

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Notas adicionais

1) O LyX é um projeto de código aberto, desenvolvido por uma comunidade em um esquema colaborativo. Assim, não é possível garantir um nível de qualidade e de estabilidade que supostamente encontra-se em softwares comerciais. Dito isso, acredito que o LyX tem o potencial para se tornar uma solução robusta e estável, e que eventualmente será uma opção adequada ao público em geral. Principalmente considrando que, à medida que se torna mais popular, a tendência é que cada vez mais publicações e universidades ofereçam modelos para suas normas específicas de formatação (por enquanto, isto é mais comum nas áreas de exatas).

2) Entre os outros aplicativos e ferramentas que usei na minha pesquisa estão o JabRef, para organizar as referências bibliográficas, o Photoshop e o Illustrator para criar e editar imagens, diagramas e tabelas e o Notepad++, para organizar notas, informações e referências preliminares (recomendo fortemente o Notepad++, um editor de texto leve e com muitas funcionalidades). Obs: Cheguei a considerar utilizar alguma solução especializada para a organização de material e referências da pesquisa, mas nenhuma das ferramentas que eu achei me agradou – acabei organizando este material manualmente, usando pastas e arquivos de texto.

3) Esta abordagem do LaTeX, da divisão entre forma e conteúdo, bem como a sua ênfase na semântica, pode ser relacionada às pesquisas na intersecção entre linguística e tecnologia da informação. Um exemplo é o estudo de Pierre Lévy, sobre o qual eu escrevo neste post (aliás, ele utiliza o LyX em sua pesquisa, segundo me informou o próprio autor).

4) Decidi que vou continuar usando o LyX/LaTeX na minha pesquisa, pelo menos por enquanto, pois acho que as vantagens compensam as desvantagens. A princípio eu já resolvi os maiores problemas que eu poderia ter com o sistema, e também já criei um modelo de acordo com as normas do meu instituto. Além disso, a tendência é de que o aplicativo se torne cada vez mais estável e com mais funcionalidades.


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