DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Elementos do Estilo Tipográfico (I) livro

[A] tipografia, assim como a poesia e a pintura, a tecelagem e a arte de contar histórias, não melhorou. Esse é a maior prova de que a tipografia está mais próxima da arte que da engenharia. Como todas as artes, ela é basicamente imune ao progresso, embora não seja imune à mudança. A melhor e a pior tipografia são tão boas ou tão más quanto sempre foram. (pág 213)

O livro Elementos do Estilo Tipográfico (Robert Bringhurst, 2005 – primeira edição de 1992) é considerado referência na área da tipografia. É um texto denso e informativo, mas ao mesmo tempo leve e bem humorado. Seu escopo é abrangente, abordando tópicos relacionados ao texto e a linguagem de uma maneira mais ampla, bem como ao design. Isso torna a leitura interessante mesmo para quem não é um especialista em tipografia (como é o meu caso – eu mal sei identificar uma Arial).

Reproduzo abaixo algumas informações, idéias e trechos que achei particularmente interessantes na minha leitura deste livro.

Regras flexíveis

Apesar de grande parte do livro ser dedicada à definição de categorias e diretrizes, e em análises precisas e objetivas de fontes e conceitos tipográficos, o autor faz questão de deixar claro que regras são feitas para serem quebradas. Dito isso, eis as regras que a tipografia deve atender, segundo Bringhurst:

  • chamar atenção do leitor, convidar à leitura;
  • revelar o teor e significado do texto;
  • tornar clara a estrutura do texto;
  • conectar o texto aos outros elementos ao seu redor;
  • “induzir a um estado de repouso energético, (…) condição ideal da leitura” (pág. 31) (!)
  • garantir atemporalidade (ou durabilidade) ao texto.

Seleção

Nos trechos a seguir Bringhurst ressalta importância de saber reconhecer, selecionar e valorizar a matéria-prima que se tem à disposição (um conselho valioso para qualquer área):

Na tipografia, assim como na filosofia, na música e na gastronomia, é preferível ter um pouco do que há de melhor do que chafurdar no lodaçal do descuido, da rotina e da cópia. (pág 131)

Quando não houver nada além de batatas para o jantar, pode-se caçar uma cebola, um pouco de pimenta, sal, coentro e creme de leite na cozinha para enriquecer o prato, mas não adianta nada fingir que as batatas são na verdade camarões ou cogumelos. (pág 108)

A matemática visa o prazer

Ao justificar a objetividade e precisão com a qual explora a tipografia através da Matemática, Bringhurst explica:

A matemática não está aí para impor trabalhos forçados a ninguém; ao contrário, seu único propósito é o prazer. Ela está aí para garantir o prazer daqueles que gostam de examinar o que estão fazendo, o que fizeram ou o que farão, talvez na esperança de fazê-lo ainda melhor. (pág 161)

A importância da tipografia

A tipografia e a edição de fontes não vão salvar o mundo, mas a coexistência pacífica e o intercâmbio entre os sistemas de escrita do mundo poderiam ser um passo nessa direção. (pág 202)

Vitalidade na variabilidade, tipografia digital

Bringhurst relata que, nos primórdios da tipografia, os glifos (ou tipos) utilizados nas prensas apresentavam pequenas variações entre si, mesmo entre caracteres e símbolos iguais (uma variação que se acrescentava à variabilidade natural da impressão física). Isto é, nem toda letra “A” que aparecia em um texto era idêntica, por exemplo.

Poucos leitores perceberiam essa diferença de modo consciente, mas cada uma dessas letrinhas sorrateiramente variantes dava seu quinhão de vitalidade à página – vitalidade que sobrevive mesmo após quinhentos anos de permanência na estante de uma biblioteca. (pág 202)

Esta característica seria retomada mais adiante com a tipografia digital, através de fontes procedurais como a Sophia (Matthew Carter) e Beowolf (letterror).

A graça não-premeditada é tão crucial para a vivacidade de uma página como para a de um jardim. (pág 207)

Mas este elemento da variabilidade não deve obscurecer a função principal da tipografia, que é a de atuar como uma “escrita idealizada”.

[A] tarefa do tipógrafo [continua sendo aquela de] conferir ilusão de velocidade e vitalidade sobre-humanas – e de paciência e precisao sobre-humanas – à mão que escreve. (pág 25).


Tipografia, música, linguagem

No início deste post citei um trecho no qual Bringhurst explica que a tipografia, assim como outras artes, é “imune ao progresso”, mas não imune à mudança. De fato, a tipografia tende a estar sempre em evidência, não só entre os tipógrafos, mas também entre designers, artistas e criativos de outras áreas, incluindo programadores e “artistas procedurais”. Constantemente surgem novas ferramentasabordagens à tipografia.

O caráter quase matemático da tipografia parece incentivar uma abordagem mais conceitual à criação e no pensar sobre a linguagem (e na maneira de expressar linguagem). Esta característica faz com que a tipografia de certa forma transcenda os seus próprios limites (algo similar acontece com a música, por exemplo).


Neste post procurei mencionar algumas das idéias que mais me interessaram em Elementos do Estilo Tipográfico. Mas o livro vai muito além disso, é claro, então recomendo a leitura para quem se interessar no assunto (mais adiante publicarei um segundo post complementando este, com mais algumas informações – se quiser ser avisado, adicione o blog no seu RSS).


PS: veja algumas das minhas produções experimentais e conceituais na área da tipografia em 7luas.com.br/tipografia
PPS: este site que vos fala utiliza o API Webfonts da Google para definir fontes para os títulos dos posts.


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