DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Elementos do Estilo Tipográfico (II) livro

Esta é a segunda parte deste post anterior, com mais algumas informações práticascuriosidades que achei interessantes no livro. Também trato brevemente sobre a questão da relação entre forma e conteúdo e a natureza das mídias digitais.


Informações práticas, dicas e conselhos

  • Linhas curtas sugerem uma leitura mais efêmera (como um jornal ou revista);
  • O peso da fonte (espessura, cor) deve diminuir à medida que ela aumenta (ao contrário do que geralmente é feito);
  • A nota de rodapé é vista por Bringhurst como um recurso “impertinente”, raramente útil  (e quando começam e terminam em páginas diferentes, são um “fracasso de design”);
  • Notas de margem, por outro lado, dão vida e variedade à página, além de serem mais fáceis de encontrar;
  • Hífens idealmente devem ser salientes à direita (ao invés de alinhados com o restante do parágrafo, como geralmente acontece);
  • Margens (o espaço entre o texto e a borda da página) ditam 50% da integridade da página (a outra metade são as letras);
  • Algarismos só devem vir alinhados verticalmente em títulos –  fazê-lo no texto corrido “rejeita violentamente a verdade das letras”;
  • Siglas que se tornaram palavras (como “laser” e “aids”) não devem estar em caixa alta.

Curiosidades

  • O termo “itálico” se refere à aparência da escrita a mão (hoje ele tende a ser simplificado como um simples aumento no ângulo dos glifos);
  • Impressão cega é um tipo de impressão que é feita sem cor (ou tinta), apenas marcando a página;
  • Os teclados apresentam em sua superfície versões maiúsculas das letras (“A”), apesar de na maior parte das vezes as teclas serem utilizadas para produzir minúsculas (“a”);
  • Alguns alfabetos possuem símbolos curiosos – meus preferidos são o “o chifrudo” e a “parada glotal“.

Forma e conteúdo

Uma idéia recorrente neste livro é de que haveria (idealmente) uma associação fundamental entre um texto (em linguagem escrita) e a tipografia empregada para a sua apresentação. Neste sentido, o texto estaria para o tipógrafo assim como uma peça estaria para um diretor teatral, ou uma composição para um músico. O autor cita como exemplo determinados romances nos quais diferentes tempos narrativos ou narradores são identificados com tipologias particulares.

Embora Bringhurst não se aprofunde tanto nesta questão, acredito que a situação descrita acima seja um caso específico no emprego e expressão da linguagem. Afinal, a escrita é uma linguagem ou forma de representação que (a princípio) independe da sua apresentação. Um determinado texto seria o mesmo, independente da fonte escolhida para a sua representação, por exemplo. A partir do momento em que a aparência física (ou visual) dos glifos tem uma função significativa em uma determinada obra, esta deixaria de ser unicamente Literatura (ou escrita), para adentrar uma área mais ampla – como Poesia Concreta, por exemplo (além disso, haveriam diferentes tipos e graus de equilíbrio entre as influências de cada um destes aspectos em uma determinada produção).


Mídia digital

A tipografia digital não é o tema principal deste livro, mas o autor trata das mídias digitais com precisão e clareza conceitual. Isso fica evidente no ótimo trecho a seguir, no qual o autor contrapõe a natureza passiva e reflexiva do papel e a luminosidade efêmera da tela:

A tela imita o céu, não a terra. Ela bombardeia os nossos olhos com luz em vez de esperar pelo nosso olhar para retribuir-nos a dádiva da visão. Ela não é ao mesmo tempo serena e vívida, como um campo florido, como o semblante de alguém que pensa ou ainda como o uma página tipográfica bem-feita. E nós lemos a tela como quem lê o céu: em varreduras rápidas, adivinhando o clima pela mudança das formas das nuvens, ou como os astrônomos, examinando detalhes de imagens telescópicas. Buscamos ali mais pistas e revelações que sabedoria. Isso faz da tela um lugar atraente para a publicidade e para a dogmatização, mas não tão atraente para textos reflexivos. (pág 210, grifo meu)


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