DANIEL FERREIRA     CRIAÇÃO + PESQUISA
Contardo Calligaris – A dificuldade de dizer não (ou sim) ensaio

O texto a seguir é da autoria de Contardo Calligaris:

DURANTE TODA minha infância, eu dizia “não” mesmo quando queria dizer “sim”. Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: “Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?”. Eu, enérgico: “Não”, acrescentando imediatamente: “Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)”. (…)

Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li “O Não e o Sim”, de René Spitz (ed. Martins Fontes). (…)

Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer “não” é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto. (…)

Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer “sim” sem acrescentar um “mas” que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. (…)

Se o “não” subjetivo é um grito de independência, o “sim” subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor. (…)

Acontece que dizer “não” é arriscado.  (…)

A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir. (…)

Publicado na Folha de São Paulo do dia 17 de Setembro de 2009.

PS: fiz esse post porque o link para o texto completo on-line é restrito para assinantes UOL ou Folha.


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