DANIEL FERREIRA     DIGITAL CREATIVE
Conte com o Digital entrevista

No Estadão de hoje saiu uma entrevista com Umberto Eco, tratando principalmente do seu novo livro Não Contem com o Fim do Livro (co-autoria com Jean-Claude Carrière, Editora Record).

Minha impressão desta entrevista é de que Eco sugere um conflito desnecessário entre o físico e o digital, e que acaba indo contra o próprio processo que ele busca defender – a evolução na produção, armazenamento, difusão e recepção do conhecimento.

Eco afirma que o digital, além de durar menos que o papel,  põe em risco a memória humana. De fato, estes “riscos” são reais, assim como foram arriscados todos os outros momentos da história nos quais o ser humano escolheu exteriorizar parte dos seus processos mentais para fora do corpo.

Não discordo que “[c]onhecer o passado é importante para traçar o futuro”, como Eco afirma. Porisso mesmo a importância de abrir a cabeça às possibilidades trazidas pela tecnologia, que tem o potencial de nos permitir conhecer o mundo de novas maneiras (somando, não sobrepondo-se às formas anteriores).

É essencial considerar o numérico não apenas pelo que ele simula, mas pelo que traz de novo. Como exemplos, posso citar as novas tecnologias de visualização de dados, que permitem novas formas de lidar com informação (especialmente em grande quantidade), e a abordagem procedimental ao conhecimento, a partir de modelos dinâmicos e interativos (em oposição ao texto em papel, estático e imutável). Estas tecnologias não são maiores e nem menores que a escrita defendida por Eco – dão continuidade a ela.

Eco já escreveu sobre a relação entre o físico e o virtual antes, porém de uma maneira um pouco menos parcial, relatando a “trágica” história da sucessão das mídias (a escrita matando a memória, o livro matando a catedral, a televisão matando o livro…) e argumentando pela necessidade de uma convivência entre o físico e o digital. Um ótimo argumento pela preservação do livro é o que ele chama de “beleza trágica” do texto fechado. Uma vez pronto, o livro torna-se definitivo – um conceito praticamente alienígena às novas gerações, e certamente digno de preservação. Sua reflexão sobre o digital, porém, se resume ao hipertexto, que apenas arranha a superfície do real poder do numérico.

Em tempo: faço esta análise de maneira pessoal e informal (afinal, isto é um blog), com base em uma entrevista breve e certamente tendenciosa (por exemplo, a primeira pergunta é: “O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?”). Certamente a leitura do livro – seja ela feita em formato impresso ou digital – deve completar muitas lacunas e esclarecer muitas dúvidas.

Além do mais, vale considerar que mesmo os teóricos mais consagrados e rigorosos também tem suas paixões e preferências – “Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe (…)”


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